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Jornalismo feito por um time de primeira

Entrevista com o fanzineiro Tomaz André

Publicado por Fábio Guedes em 1 de abril de 2009

Fotos: Henrique SartrianeTomaz André é um dos fanzineiros mais antigos ainda em atividade no Distrito Federal. Conhecido na década de 1990 por seus trabalhos com o impresso O Espírito de Porco, que apresentava hilárias histórias em quadrinhos, Tomaz trabalha atualmente com o site Zine Oficial, que lança edições impressas, em caráter especial, sobre os principais eventos undergrounds do DF e Entorno.  Conheça um pouco da história desse baluarte da contra-cultura brasiliense.

 

Por: Fábio Guedes

 

Notícias de Fato – Há quanto tempo você edita zines?

 

Tomaz – O primeiro foi em 1984. Comecei estimulado pela professora de artes da oitava série, em um projeto chamado Jornal Transado

 

Notícias de Fato – O que espera atingir com a publicação de zines?

 

Tomaz – Ao definir o formato do Zine Oficial, minha intenção foi divulgar e dar maior credibilidade às produções locais, ajudando a manter viva a cena underground do DF e Entorno, da qual sou freqüentador. Outros zines que editei ou colaborei tinham motivos diferentes: desenvolver projetos, manifestar convicções políticas ou compartilhar textos e desenhos com outros zineiros, por pura diversão.

 

Notícias de Fato – Quais as vantagens e desvantagens de se editar um zine?

 

Tomaz – A grande vantagem de editar um zine é a liberdade de expressão, o prazer de falar do que se gosta. A grande desvantagem é a luta para sustentar a publicação. Potenciais patrocinadores nem sempre aprovam o estilo do zine e o editor precisa ter personalidade para vetar quando tentam interferir na linguagem utilizada ou no conceito do trabalho. Nesses casos, o editor acaba arcando com os custos. Como diria o velho Raul Seixas, ser livre é muito di-fí-cil!!!

 

Notícias de Fato – Atualmente é bem mais fácil fazer zines. Comente um pouco das dificuldades em se trabalhar com esse tipo de impresso nos anos 1990, e quais as dificuldades encontradas nos dias de hoje?

 

Tomaz – Até o começo dos anos 90, a composição tipográfica e a informática eram restritas. Para montar um zine, eram feitas reduções e ampliações na máquina xerox, pois os textos eram datilografados em um único tipo e tamanho de letra. Saía caro e dava um trabalhão danado só para montar o original. Com acesso aos programas de editoração e impressoras laser a grande dificuldade dos editores mais novos não é fazer um fanzine impresso. É resistir à tentação de encaminhar o arquivo fechado por e-mail.

 

Um "velho" exemplar do O Espírito de Porco.

Um "velho" exemplar do O Espírito de Porco.

Notícias de Fato -

Comente um pouco sobre seu antigo zine, O Espírito de Porco.

 

Tomaz – Eu já distribuía algumas cópias xerox com aventuras do personagem O Espírito de Porco quando ainda editava o Jornal Galera, entre 85 e 87, um zine estudantil que marcou época. Em 89 comecei a trabalhar em uma empresa especializada em matrizes para impressão tipográfica e off-set. Junto com um amigo da seção de arte, montei e mandei imprimir 1.200 cópias em PB do zine O Espírito de Porco número 1, isso em 1990. Precisávamos desesperadamente das vendas para cobrir os custos. Por incrível que pareça, sobrou até para a cerveja. Chegavam muitos pedidos pelo correio, por causa de uma resenha da Revista Bizz, de circulação nacional, que publicou nosso endereço de contato elogiando: “O zine quadrinheiro mais hilário dos últimos anos é feito em Brasília por Júnior e Tomaz.” O Júnior mudou-se para Belém (PA) antes de sair o número 2. Os pedidos pelo correio continuaram chegando aos montes e vendi quase todas as 2.000 cópias da segunda edição, com capa impressa em duas cores. Havia muita cobrança em relação à continuidade da publicação, mas não tinha graça fazer o Espírito de Porco sozinho, além de dar muito trabalho! Daí passei a colaborar com outros zines.

 

Notícias de Fato – Há quanto tempo você edita o Zine Oficial? Quantas edições já foram lançadas?

 

Tomaz – O Zine Oficial veio à cabeça em 2006, para divulgar o primeiro Festival Quaresmada. Agreguei depois importantes colaboradores, essenciais na continuidade do projeto. Divulgamos diversos festivais a partir de então, em 20 edições até o começo de 2009. A Agenda do Rock foi uma edição especial, em parceria com 36 bandas, distribuída no início de 2008. Contando todas as edições citadas, são 21 números, somando mais de 60.000 exemplares, ao longo de três anos de existência.

 

O Zine oficial na tela do PC.

O Zine oficial na tela do PC.

Notícias de Fato -

Fale um pouco sobre a versão on line do Zine Oficial. Quais as semelhanças/diferenças entre os dois formatos?

 

Tomaz – O site http://www.zineoficial.com.br subiu para a rede mais ou menos no final de maio de 2007, com a idéia inicial somente de hospedar cópias em PDF de nossas edições impressas. Os acessos aumentaram bastante com a manutenção de uma agenda de shows atualizada toda semana e criação de vários links ligados ao universo underground. O sucesso e a abrangência do site nunca ameaçaram a continuidade do projeto original. O Zine Oficial circula impresso em formato de bolso em locais de encontro de roqueiros de várias áreas do DF e Entorno, que redistribuem o zine em suas cidades, fazendo um trabalho de campo para divulgar um ou dois eventos específicos e valorizar o trabalho das bandas, registrando sua história no papel, na ordem das apresentações. Assim o leitor pode levar seu exemplar para os shows e, caso não conheça, identificar e acompanhar cada banda.

 

Notícias de Fato – O que você acha dessa nova mídia on line?

 

Tomaz – Comecei a aprender edição em HTML somente no início de 2007, justamente para montar o site do Zine Oficial. Estou achando massa! Com o site do Zine Oficial, superei muitas implicâncias que tinha em relação à WEB, no entanto, continuo preocupado com a falta de compromisso que vejo por parte dos usuários da rede em geral.

 

Notícias de Fato – O que o leitor pode encontrar de diferente em um zine que não encontraria em uma revista?

 

Tomaz – Depende da revista. Em geral, o leitor encontra nos fanzines mais que informações, encontra sua turma. Todo zine tem uma causa, um amor, um ódio, algo que não consegue ser escondido. O fanzine é sempre passional. Nos fanzines o leitor exige que os editores e colaboradores estejam tão interessados no assunto quanto ele. O leitor do fanzine sabe identificar nas entrelinhas informações que as revistas nem sempre revelam porque raramente são escritas por fãs ou protagonistas dos temas abordados.

 

Tomaz colocando a mão na massa.

Tomaz colocando a mão na massa.

Notícias de Fato -

Você tem a pretensão de transformar seu zine em uma revista?


Tomaz – Tenho sim, no sentido de ser uma publicação com periodicidade regular. Desde o começo a intenção foi tornar o Zine Oficial auto-sustentável, mas sem perder as características principais de um fanzine, que são liberdade de expressão e apego a uma causa, no caso, manter vivo o universo underground do DF e Entorno, valorizando as produções locais. Para isso, é fundamental o empenho de produtores comprometidos com a definição e cumprimento de um calendário anual, para planejarmos as edições impressas com antecedência, através de parcerias. Dessa forma, o zine poderia se transformar em uma revista sem mudar seu conceito original. Importante lembrar aqui que liberdade de expressão não é falar ou escrever palavrões o tempo todo, “puta que pariu”, “caralho!”. É poder defender idéias sem censura. Uma vez o Angeli, autor dos Skrotinhos, Rê Bordosa, Bob Cuspe e um monte de outros personagens históricos e escatalógicos foi questionado sobre isso na revista Chiclete com Banana, grande sucesso do quadrinhista nos anos 80. Segundo me lembro, os leitores reclamavam na seção de cartas que ele estaria publicando poucos palavrões na revista, perdendo a identidade de antigo fanzineiro. Então Angeli respondeu educadamente que não estava cedendo à nenhuma censura, achava apenas que palavrões demais fora de contexto perdiam a força e, surpreendentemente, não mandou os leitores tomarem no cú.


Notícias de Fato –
Você estava organizando o fórum “200 anos de Fanzine no Brasil?”. Fale tudo o que puder sobre essa proposta… O que aconteceu com a idéia?!Tomaz – A intenção do fórum “200 anos de Fanzines no Brasil?”, frisando bem a interrogação, era aproveitar o paralelo entre os 200 anos do surgimento do embrião da Imprensa Nacional no ano de 1808 e da publicação do primeiro jornal “marginal” brasileiro. O Correio Braziliense de Hipólito José surgiu da forma como conhecemos os fanzines, mas era editado em Londres e contrabandeado de navio para o Brasil, onde legalmente só podia circular a Gazeta do Rio de Janeiro, controlada pela família real portuguesa, através da Impressão Régia. Durante alguns meses no segundo semestre de 2008, discutimos quando foram editados, impressos ou copiados à mão mesmo, os primeiros fanzines em solo brasileiro, procurando saber quais seus assuntos de interesse: política, música, humor, poesia, romance. Como critério, consideramos fanzines as publicações editadas de forma independente pelos próprios autores, incluindo nessa categoria a literatura de cordel. Infelizmente, o fórum “200 anos de Fanzines no Brasil?” ficou restrito à internet, através do site do Zine Oficial. Pretendíamos realizar debates ao vivo, exposições e um grande evento de encerramento do Fórum, mas não foi possível por causa de compromissos profissionais meus, que levaram também ao adiamento de outro projeto, a criação da WEB Rádio Zine Oficial, com programas ao vivo.

 

 

Última revisão antes da publicação.

Última revisão antes da publicação.

Notícias de Fato -

Quais conselhos você daria para as pessoas que querem começar a trabalhar com zines?

 

Tomaz – Se o futuro zineiro está inserido em algum movimento cultural ou social, é muito importante formar um núcleo de colaboradores sinceros, comprometidos com a proposta editorial, pois eles vão ajudar muito na produção e divulgação do zine. Se esse futuro zineiro está querendo se encaixar em alguma turma ou divulgar um projeto pessoal, é preciso estar preparado para tudo. Ao invés de trazer muitas amizades e proporcionar dinheiro através de idéias mirabolantes, editar um zine pode despertar antipatias e acumular prejuízos financeiros.

Conheça a versão on line do Zine Oficial.

 

Conheça outros zines que também apresentam versão on line: O Suversivo Zine ; Acid Farted Zine.

 

Veja a entrevista concedida ao Programa Synergia, na qual fanzineiros do DF comentam sobre as vantagens e dificuldades em se trabalhar com a imprensa alternativa:

 

 

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9 Respostas para “Entrevista com o fanzineiro Tomaz André”

  1. Luciano Maia disse

    Valeu Tomáz!

    Nota 10!

    Luciano Maia

  2. Juliano disse

    AE TOMAZ, CONTINUE MANDANDO BRONCA NO ZINE OFICIAL, QUE TEM AJUDADO A RAPAZIADA DO ROCK!!! DO CARÁIO!!!!

    FALO!

  3. Marcos disse

    É isso o Tomaz tem um trabalho exelente na area dos fanzines e é a pessoa mais indicada para se tratar desse assunto em Brasília. Parabéns pela iniciativa do Tomaz e do blog por registrar essa movimentação que é tão importante para a cultura local.

    Parabéns.
    Abraço a todos.

  4. Prezados Editores! O circo sempre pega fogo – fazer zine é experimentar as altas temperaturas das fogueiras de vaidades. Fico satisfeito pelo trabalho Tomaz atrair a atenção dos estudantes de jornalismo.
    O zine é complexo é grilo na cuca senão não funcinaria!
    Não sei como Tomaz consegue fazer o ZINE OFICIAL e pagar as contas essa é a mágica da grande engenharia da resistência ou contracultura!

  5. Muito Bom! Viva a liberdade de expressão que só os fanzines podem providenciar para nós, pobres mortais seguidores da cena alternativa. Parabéns Tomaz, Isan e toda a equipe de colaboradores do Zine Oficial.

  6. Alê disse

    Tomaz André bom esse cara além de ser uma espécie rara,de talento e coragem,continue na saga pois Brasília precisa de pessoas assim que cultiva a cultura,o rock roll,enfim…

  7. marisa disse

    Legal a entrevista…..Ler o ZINE OFICIAL já faz parte da rotina de sexta feira!Parabéns,Tomaz! AVANTE!

  8. Eu conheço o trabalho do Thomas há muitos anos, e fato que esse formato de divulgação tem não somente um público cativo, como está em ascenção em brasília e principalmente no entorno, onde surgem boas publicações e divulgações de bandas e do undergroud do distrito federal e entorno

    um abraço a todos e parabéns pelo zine

  9. Esse cara é meu irmão no sentido literal da palavra. Conheço muito bem o seu talento e sua genealidade. Indivíduo culto, artista respeitado, não somene no Distrito Federal, mas por grande parte do Brasil. Parabéns camarada, excelente entrevista! Sorte em sua labuta diária!

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