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Literatura, Raquel e eu

Posted by Vinícius Ferreira em 4 de janeiro de 2011

Raquel de Queiroz foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (1977)

Dizem que a literatura é a arte da palavra, é a tecnologia de ponta da linguagem, é aquilo que se faz com sinceridade e que nos aproxima de quem realmente somos. Ela apresenta a realidade, mesmo que na maioria das vezes subjetiva. É essa visão de mundo que não se pode duvidar, mesmo na mais ficcional obra literária, existem traços da realidade contidos na vivência de cada autor. Quando tinha 5 anos tive minha primeira experiência – consciente – com o medo. Acompanhava minha mãe na casa de uma vizinha – no tempo em que os vizinhos se conheciam e visitavam uns aos outros – quando ouvi passos miúdos e rápidos em minha direção. Era um cachorrinho, mas parecia mais um esquilo, ou camundongo ou rato. O latido fino se aproximou e eu pulei no colo da minha mãe. Esse é um ponto importante: ainda hoje, mudo de calçada ao avistar um cachorro vindo na mesma direção. E qual é a consequência disso? Bastante óbvia, nunca tive cachorros. O medo e o trauma nos fazem desviar dos caminhos retos da consciência e nos privam de conhecer o prazer em muitas coisas. Desde criar cachorros a, por exemplo, descobrir o brasil.

O que quer dizer descobrir o Brasil? Quando criança o mundo não passava das folhas secas que caiam da árvore na garagem lá de casa. Não tive a oportunidade de explorar os ótimos ares das calçadas e ruas e molecagens que os garotos da minha idade faziam por lá. O que quero dizer é que o desconhecimento, seja ele qual for, flutua pelos estreitos caminhos das oportunidades. Assim, falando de literatura, posso contemplar minha total ignorância em relação a Raquel de Queiroz. Não tive oportunidade de saborear os traços específicos de sua linguagem, nem a sua visão de mundo. Tudo o que sei é que ela não gostava de escrever, mas o fazia com muita destreza, bem diferente de mim.
Devo dizer, ou pelo menos tentar, as razões pelas quais não conheci a Raquel. São lembranças do tempo da infância. Tive desde cedo a dificuldade de me encaminhar no mundo das letras, passei todas as tardes das férias de verão, aos 7 anos, sentado com uma professora de reforço. Minha objeção pela leitura começa aí e se estende até a maior idade, passando por leituras superficiais de Machado de Assis e Graciliano Ramos, dois mestres. Mas nunca Raquel. A falta de incentivo dos pais, da escola e o desinteresse pessoal são fatores justificáveis, porém o medo de uma nova frustração foi o que fundamentalmente me afastou de outras experiências e consequentemente da Raquel.

Não sei o que teria acontecido numa conversa face a face, sentado no sofá, comendo comida caseira, tipicamente goiana, após o almoço ou jantar e fingindo não prestar atenção no barulho produzido pelo restante da família. Levanto, caminho até a cozinha, bebo água. Volto com mais disposição e leio o título do diálogo ao qual me propus começar: O quinze. A interação parece intensa e o clima aparentemente bom. Talvez este seja o início de uma boa relação. Na verdade, encontrei a Raquel pelos caminhos virtuais, mas essa vivência cara a cara seria uma experiência incrível.

Não conseguiria destacar desse simples risco virtual a importância da Raquel de Queiroz, sem métrica e ritmo e poesia não há como qualificar uma vida dedicada às belas-artes. Acredito na magia da literatura e no resultado dela sobre o ser, por isso, Raquel é importante, porque mesmo sem conhecê-la, sua vida e obra fizeram-me refletir sobre as minhas e isso faz muito sentido em literatura. Essa reflexão é imensurável e  desperta questionamentos; expõe fantasmas e medos; e transforma realidades. Pena existirem muitos que, como eu, ainda desconhecem esse pedaço de Brasil recortado pela Raquel.

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Uma resposta to “Literatura, Raquel e eu”

  1. Edson Porto said

    Que artigo bacana!
    Coloquem o Vinícius pra escrever mais!

    Curtir

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